quinta-feira, 2 de agosto de 2018

QUERIDA COLUNISTA OCIDENTAL: APROPRIAÇÃO CULTURAL

Escrevi esse texto no final do ano passado, depois de ler uma coluna na página Medium de autoria de jam senusn (tudo em minúsculo mesmo), intitulada "Querida pessoa branca: cocar não é acessório ou enfeite". A autora parte da utilização do cocar como fantasia para discutir a "apropriação cultural", tendo mote de que "cocar carrega significado. Cocar não é chapéu" e ao se utilizar um descontextualizamos seus signos e o diluímos em uma cultura etnocida. Acredito que trazer essas questões é extremamente importante e necessária, mas.....

Querida colunista ocidental:

A questão que a autora levanta é importante, fala do respeito a cultura do outro, assumindo que existe uma cultura etnocida e colonizadora, uma cultura opressora. No entanto, o texto tem dois pontos equivocados: ela também fala da cultura do outro como "integrante da sociedade ocidental defensora dos pobres povos oprimidos" e cai na falácia do que vem se cunhando como "apropriação cultural".

Almir Wanaizukar, da tribo manoki, de Mato Grosso,
vendeu cocar feito de penas de arara por R$ 150
(Foto: Glauco Araújo/G1)
Pensando a primeira questão: ela não é uma indígena para dizer o que é ou não é desrespeito a cultura deles. Além disso,existem diversos grupos indígenas com visões diferentes da vida. A foto acima, por exemplo, desmantela todo o argumento dela: um índio vendendo um cocá como um simples artesanato (link da matéria). Será que ele está desrespeitando a cultura de seu povo e quem está certa é a menina ocidental que escreveu no blog? Pode ser, não conheço esse índio nem outros que vi vendendo artesanatos e cocas por aí. Eles podem ser todos renegados, mas acho difícil. Ou seja, ela acabou se outorgando o direito de dizer no lugar dos índios o que é ou não desrespeito com a cultura deles, em uma posição que por si só é parte da cultura do opressor, mesmo com as melhores das intenções: dizer o que é certo ou errado no lugar do outro, porque, "coitado, o outro não tem espaço para dizer". Ao final do texto coloquei um link em que uma indígena fala sobre fantasia de índio (aviso, ela não vê nada de errado nisso, pelo contrário) 

Agora sobre o termo "apropriação cultural", tenho que admitir que é um dos piores termos que já ouvi ou li na minha vida. Primeiro porque toda cultura é apropriada: você lê esse texto em português brasileiro, assim como fala essa linguá, porque se apropriou do universo linguístico da cultura em que foi criada, você pensa o que pensa porque se apropriou de diversas visões de mundo, a cultura que vivemos é uma apropriação constante das culturas que se encontram, só existe interação entre povos se há apropriação cultural (caso contrário estaríamos vivendo guerras Babélicas ou o outro não existiria, mesmo que passasse do nosso lado, pois não nos apropriaríamos de sua existência), etc. Há apropriação cultural ou não há cultura. Se a apropriação que realizamos não é profunda, se ela não é profundamente reflexiva, é porque na nossa cultura, na cultura do Capital, nada pode ser muito profundo. Motivo pelo qual somos poucos que se importamos realmente com questões como essa.

Outro fator importante para o debate é que o Carnaval de rua tem uma característica fundamental, ele é Dionisíaco, ele subverte, ele, citando um amigo carnavalesco como eu, é o caos. Não há regra que perdure na rua de carnaval. Inclusive, nesta, toda regra é assumida como aquilo que deve ser transgredido, tudo que é sagrado é profanado. Isso quer dizer que, tudo que se coloca como fora do alcance das pessoas, por exemplo a cultura indígena, é tomada por essas para fazerem delas suas. A história das brincadeiras, desde milênios, é justamente essa: a própria população de determinada cultura pega os rituais sagrados e deles fazem jogos e brincadeiras. O que é o Carnaval se não isso, a suspensão de quase tudo que é sagrado?

Em tempo, essa ideia, como apontei, paradoxal de que possa não existir "apropriação cultural", leva absurdos trágicos e cômicos. Um exemplo deste segundo eu vivi. No carnaval saio com amigos sempre vestido de mulher com peitos. O mais comum são as mulheres do nada apertarem eles, o que os fazem estourar. Com a onda muito correta do "meu corpo minhas regras", começamos a dizer isso quando vinham apertar nossos peitos. Um belo dia uma menina que havia acabado de fazer justamente isso, ao ouvir minha resposta, chegou e falou: "que feio, isso é apropriação cultural das feministas". A menina branca, loira e de olhos verdes, estava vestida de baiana. Sem mais.


"Para debater no Dia do Índio: 'Uso de cocar no carnaval é troca, não discriminação', diz líder indígena" - https://www.bbc.com/portuguese/brasil-43031742


quarta-feira, 1 de agosto de 2018

A IMPOSSIBILIDADE DE FOTOGRAFAR O CARNAVAL

Queria fazer uma foto do carnaval, na verdade a fiz, muitas e muitas vezes, mas ela jamais se fez. Nas fotos não se revelava o carnaval, não que foto revele qualquer coisa, mas ela sempre carrega, como já colocou Barthes, algo da existência: em algum momento aquilo que está na foto precisou estar ali para ser fotografado, precisou existir no tempo e no espaço do ato fotográfico. O carnaval, não. Ele nunca surge na foto. Ou melhor, a foto nunca aponta para a existência dele. Não que alguém ao olhar uma foto não possa dizer, “ah, foi feita no carnaval?”. Ao que outrem pode muito bem responder, “sim, foi no carnaval de 2017, no Rio”. Mesmo assim, a foto não traz o carnaval, traz mais o tempo da foto do que o estado fotografado, pois se o punctum estará lá ou não para quem olha a fotografia, o que foi aquele carnaval não está no punctum. O carnaval não é captável. Afinal, como definir o que é em si a desconstrução, a indefinição, o ato Bacciano de existir? O carnaval é um hiato no tempo e no espaço e sem esses não há foto, pois, como dito, é preciso que alguém ou algo esteja em algum lugar em algum tempo para ser fotografado, como então fazer uma foto do carnaval?

Queria escrever esse texto logo depois do carnaval, mas inibi-me quando li um post fantástico falando sobre o carnaval do Rio de 2017, que foi compartilhado mais de mil e quintas vezes no Facebook, de uma pessoa que não é escritora, mas um folião. O texto parecia conseguir o que a fotografia não consegue, ser o carnaval, ao dizê-lo. Contudo, tardiamente percebi que ele era somente um memento, faltava algo, a capacidade de mostrar os milhares de momentos não como memória, mas como momentum, como a força que manteria o carnaval em movimento por si só, imiscuída na experiência do corpo (como um todo) pós-carnavalesco (aqui no tempo linear-cronológico).

O carnaval, assim, nunca esteve no texto ou poderá estar na foto. Para quem não estava nele, o carnaval se mantem intraduzível. Fica claro que ele não tem tempo linear e nem circular, não é católico e nem pagão, ele se quer existe na nossa capacidade cognitiva. Só é possível desdizer o carnaval, referi-lo como uma experiência de um tempo que talvez virá, em que não mais a percepção temporal seja linear, mas momentânea. Só quando o tempo se colocar como o presente e a experiência tomar conta da vida é que o carnaval poderá ser fotografado, ou escrito, mas será justamente por ser a construção do presente o próprio carnaval que sua representação será sua existência, a todo momento.