Queria fazer uma foto do carnaval, na verdade a fiz, muitas e muitas vezes, mas ela jamais se fez. Nas fotos não se revelava o carnaval, não que foto revele qualquer coisa, mas ela sempre carrega, como já colocou Barthes, algo da existência: em algum momento aquilo que está na foto precisou estar ali para ser fotografado, precisou existir no tempo e no espaço do ato fotográfico. O carnaval, não. Ele nunca surge na foto. Ou melhor, a foto nunca aponta para a existência dele. Não que alguém ao olhar uma foto não possa dizer, “ah, foi feita no carnaval?”. Ao que outrem pode muito bem responder, “sim, foi no carnaval de 2017, no Rio”. Mesmo assim, a foto não traz o carnaval, traz mais o tempo da foto do que o estado fotografado, pois se o punctum estará lá ou não para quem olha a fotografia, o que foi aquele carnaval não está no punctum. O carnaval não é captável. Afinal, como definir o que é em si a desconstrução, a indefinição, o ato Bacciano de existir? O carnaval é um hiato no tempo e no espaço e sem esses não há foto, pois, como dito, é preciso que alguém ou algo esteja em algum lugar em algum tempo para ser fotografado, como então fazer uma foto do carnaval?
Queria escrever esse texto logo depois do carnaval, mas inibi-me quando li um post fantástico falando sobre o carnaval do Rio de 2017, que foi compartilhado mais de mil e quintas vezes no Facebook, de uma pessoa que não é escritora, mas um folião. O texto parecia conseguir o que a fotografia não consegue, ser o carnaval, ao dizê-lo. Contudo, tardiamente percebi que ele era somente um memento, faltava algo, a capacidade de mostrar os milhares de momentos não como memória, mas como momentum, como a força que manteria o carnaval em movimento por si só, imiscuída na experiência do corpo (como um todo) pós-carnavalesco (aqui no tempo linear-cronológico).
O carnaval, assim, nunca esteve no texto ou poderá estar na foto. Para quem não estava nele, o carnaval se mantem intraduzível. Fica claro que ele não tem tempo linear e nem circular, não é católico e nem pagão, ele se quer existe na nossa capacidade cognitiva. Só é possível desdizer o carnaval, referi-lo como uma experiência de um tempo que talvez virá, em que não mais a percepção temporal seja linear, mas momentânea. Só quando o tempo se colocar como o presente e a experiência tomar conta da vida é que o carnaval poderá ser fotografado, ou escrito, mas será justamente por ser a construção do presente o próprio carnaval que sua representação será sua existência, a todo momento.
Nenhum comentário:
Postar um comentário