sábado, 28 de julho de 2018

A LUZ DE CARAVAGGIO

Queria falar sobre nós, seres humanos ocidentais hipermodernos. Para alguns, o Homem (aqui o machismo é implícito) moderno surge no Renascimento, o Homem Vitruviano é a sua representação máxima. O iluminismo e o capitalismo, que se desenvolveram séculos depois, seriam capazes de levar ao conhecimento total e, consequentemente, ao controle total sobre a vida e a natureza, ao vitruvianismo, digamos assim.
Sou do pequeno grupo que acredita ser o Maneirismo, movimento que seguiu após o renascimento, o criador do homem moderno. No entanto, para além disso, não seria também esse movimento criador do ser humano hipermoderno, nós?

A queda de Ícaro, de Goultizus, não parece mais conosco, do que o Homem Vitruviano? Em sua queda eterna, de corpo distorcido, sem controle sobre a natureza e sem tocar nada? A obra de Da Vinci, parece ser muito mais a pretensão do homem moderno, que no fundo nada mais era do que um ícaro a cair retorcido no ar, sem controle de nada, mas se achando Deus do mundo.

O que Caravaggio tem a ver com toda essa reflexão? Ele foi um dos últimos maneiristas e criador de uma nova forma de construir o mundo, com seus claros e escuros, com seus modelos imperfeitos, com sua dramaticidade da vida, com a dualidade entre mundano e divino. Ele criou o Barroco.

Será que nós, seres hipermodernos, a quem não cabe mais uma visão dual de mundo, visão moderna, mas que persiste em nós, não compreendemos o maneirismo que somos e a luz que procede vindo de Caravaggio?

Ao olhar-se um quadro dele, a luz e a sombra saltam aos olhos e fazem as ações retratadas, cenas dramáticas, ganharem mais força. A luz, no entanto, muitas vezes irreal, é a que ilumina o que a cena tem de principal, deixando a sombra o resto. A luz de Caravaggio é divina.

No capitalismo hipermoderno, em que não temos controle de nada, mas que achamos ter poder e acesso a tudo, o marketing se tornou a luz de Caravaggio, nos dizendo o que realmente importa, nos mostrando ideias de vida, de relações, de existência. Caindo eternamente, como Ícaro, acreditamos ser Vitruvianos, tomados por visões de mundo mercadológicas que incidem sobre nosso drama de vida como uma luz divina.

É preciso que percebamos que há uma escuridão a nossa volta, que esconde maravilhas e horrorosidades. Precisamos não destruir a luz, mas torná-la nossa e aceitar nossa queda, construindo caminhos em que percebamos que não podemos ver tudo, mas que há uma luz divina que pode emanar de nós para nós e modificar nossos corpos distorcidos.




terça-feira, 24 de julho de 2018

O SILÊNCIO DOS AMANTES

Havia uma tristeza no amor romântico, uma tristeza da sua impossibilidade, pois era amor a uma imagem e não ao ser amado por si. Era um amor inalcançável na carne, mas, por isso, era o único amor perfeito.

A herança deixada por esse amor perverso, posto ao lado, a parte, é a incapacidade de se satisfazer, pois ele está justamente na imagem a parte da pessoa amada. No entanto, o amor é desde sempre um amor a imagem, a beleza, a verdade, é sempre um eidos.
Em uma era do Eu como centro do mundo ocidental, o amor ao outro é um amor a imagem que fazemos do outro, mas uma imagem narcísica. A perfeição é um outro que me confirme como eu, minhas qualidades como maravilhas e meus defeitos como qualidades, pois me constituem em minha perfeição.
Os Amantes de René Magritte, 1928
A melhor das relações é a inexperienciavel. Uma relação em que o Eu que sou não esteja mergulhado, não se arrisque em ir as profundezas da intimidade. Assim, se resguarda todos defeitos, todas as idiossincrasia, tudo que possa destruir a imagem que nosso amante fez de nós e que nós fizemos dele. Confundimos intimidade com sexo e o prazer fugaz, aquele do contato físico, é levado ao extremo, num eterno carpediem. Eterno repetir do gozo, um inferno pagão ao qual não se sabe que se está, até o vazio do sempre-o-mesmo abrir nosso peito com a força de uma falta. A qual necessita de mais prazer, cada vez mais......

No final, fugimos tanto do peso das relações e de seus sofrimentos inerentes, que aceitamos uma alegria leve, sem profundidade, e está tudo bem, pois a nossa carne esconde todo o vazio que a vida já nos dá e todo o vazio que nosso Eu constrói para si mesmo. Fugir para nossa própria imagem e morrermos afogados como narciso, por que não? Afinal, melhor viver o superficial e morrer sem sofrimento na nossa própria imagem, do que se jogar na imensidão da vida e amar o desconhecido do outro e de nós mesmos, sob o risco de sofrer, mas, também, de experienciar a felicidade, sem escondê-la na euforia.


sexta-feira, 20 de julho de 2018

PENTESILEIA - A CIDADE SEM EXPERIÊNCIA

Pentesileia é uma das cidades que Marco Polo descreve ao Grand Kahn, no livro de Italo Calvino, Cidades Invisíveis. Como todas as cidades do livro, nenhuma deixa de ser a mesma. Na que está aqui em destaque nunca se consegue saber se estamos já nela ou se já saímos dela, como o autor coloca ao final da descrição que faz da cidade: "fora de Pentesileia existe um lado de fora? Ou, por mais que você se afaste da cidade, nada faz além de passar de um limbo para o outro sem conseguir sair dali?"

Pentesileia, na mitologia grega, foi uma das rainhas amazonas. Sua história, no entanto, é trágica, ela matou sua irmã por acidente, passando a desejar a própria morte pelo que fez. Motivo que a levou a entrar na guerra de Troia, onde é morta por Aquiles. Esse ao ver toda a beleza da amazona, por de trás de sua armadura, se comove. Temos uma beleza escondida e uma tristeza que constrói o caminho da própria morte, pela incapacidade de sentir a vida.

Queria partir desse pensamento para dizer que Petensileia é a cidade do inexperienciavel. Nada fica como conhecido, nada fica como sabedoria, nada nos constrói. Ao final de uma jornada na cidade, volta-se extenuado para seu dormitório, tendo passado por inúmeras situações de estresse ou prazer, sem que nada vire experiência, sem que nada possa ser expropriado na fala. O cidadão de Pentesileia, quando fala tudo, não consegue dizer nada de si, fica ele melhor calado, em silêncio, do que se exortando em palavras vãs. No dia seguinte, no fim de semana seguinte, ele irá repetir o vivido como um outro, como se estar em uma nova localidade fosse possível.

A cidade limbo, o inferno de Hades em que se vive sempre o mesmo, está no metrô, onde escrevo esse texto, está na rua, no trabalho, na escola, na cerveja com os amigos, nas relações amorosas. Petensileia escorre por nossos corpos até que não haja mais corpos, primeiro dominados por prazeres sem profundidade, para apaziguar cotidianos rasos e extenuantes, depois porque passamos da cidade limbo para o nada completo, o abraço frio da morte, nada romântico, em que a repetição se torna eterna por força da natureza e não mais por nossas ações.

Não há rota de fuga, mas ninguém falou que os prédios de Pentesileia são indestrutiveis. Sua destruição, no entanto, não está na busca do prazer, que se tornarão uma busca constante e repetitiva. Ela está na desativação de suas construções por atos de tomada de posse. Uma posse de si com os outros, uma posse coletiva e individual, em que sejamos aquilo que queremos e não o que querem que queiramos. Quando formos um ser qualquer (qual-se-quer), sem precisar de afirmação, sem precisar dizer o que somos, Pentesileia parecerá ter sumido e a usaremos livremente interna-externamente em cada um em um coletivo, teremos, por fim, o que experimentar.
A morte de Pentesileia
Tichibein 

terça-feira, 17 de julho de 2018

EU, A ERA


Inventa-se o Rei Filósofo. Diz-se, a terra não é o centro do universo. Inventa-se o Je pense, donc je suis. Eu penso, logo existo (estou e sou). Diz-se, o sol não é o centro do universo. Inventa-se o inconsciente e o consciente. Diz-se podemos viver num multiverso. O ocidente criou o egocentrismo esquizofrênico. No final, percorremos mais de quatro mil anos para nos sentirmos o centro de um universo sem centro.

O eu cogito do cartesianismo, fundante da nossa sociedade de base iluminista, tornou-se o ser de consumo desenfreado, de prazeres levianos à objetos descartáveis. Bauman liquidificou tudo, que já escorria pelas nossas mãos. Não há amor que dure, não há vivência que vire experiência, não há nada além do eu, do mais puro eu.

A psicanálise, que transformou o eu cogito em um ser de dupla personalidade, entregou tudo a um ego cindido: todas as sensações são do eu, ele as produz e para ele elas voltam, tanto consciente como inconscientemente.

O egocentrismo de um universo de bilhões de centros, um constante chocar de estrelas que esperam que as outras a rodem. Só que nenhuma delas sabe quem são elas mesmo. Todas elas são inconscientes conscientes dos outros e não de si. Nas redes sociais, espaço mercadológico, vendem-se a imagem do outro eu que eu nunca serei, mesmo quando a imagem é feita por "mim" sobre "mim" . Não há Eu algum na foto, mas o centro do universo que eu penso logo existe, mas que se liquefaz em segundos. O eu da foto, não sou eu, mas justamente o EGOCÊNTRICO de um mundo de negócios.

Não pense que negócio é dinheiro, o mercado dominou toda a vida, o beijo que dá em um perdido na noite suja, faz-se pela incapacidade de se ter experiência, faz-se pela emoção da aventura, do novo, do sempre novo, da mercadoria que se renova e se descarta a cada instante. Todo dia ela não faz tudo sempre igual, todo dia ela faz o novo de novo, num eterno renovar do mesmo, numa eterna maquiagem da vida. Na mercadoria, a história não perdura, torna-se inalcançável. Não se sabe de onde ela veio e para onde ela vai, não se vê o prazer fugaz e destrutivo que o ego sente, pois se é prazer meu, é o prazer, é a verdade. Eu sinto, logo inconscientemente existo.

No universo egocêntrico, de bilhões de ego, a história do próprio ego não importa, pois ela implicaria a existência de outros egos, que deveriam rodear o meu ego, mas não rodeiam. Apaga-se o outro, apaga-se as histórias vividas. Cada um aprende a se preocupar só com si, mas paradoxalmente precisamos confirmar nossa liberdade pelo julgamento dos demais. Esquizofrenia social justamente pq não somos o eu que pensa, mas o ser que enuncia "eu penso, logo existo" e só se enuncia a partir de uma linguagem apreendida com os outros. Não há um eu, não há um ego, mas um ser que é único e coletivo, perdido em uma sociedade em que até respirar se tornou um processo mercadológico do Eu (do inexistente), nada que se inspira constrói uma fuga do cotidiano de sempre novos iguais do para mim, do egoísmo. Até as preocupações com os outros perpassam o meu bem estar, antes do bem estar do outro. Inventou-se o egocentrismo. Disse-se, o multiverso sou eu.