Sou do pequeno grupo que acredita ser o Maneirismo, movimento que seguiu após o renascimento, o criador do homem moderno. No entanto, para além disso, não seria também esse movimento criador do ser humano hipermoderno, nós?
A queda de Ícaro, de Goultizus, não parece mais conosco, do que o Homem Vitruviano? Em sua queda eterna, de corpo distorcido, sem controle sobre a natureza e sem tocar nada? A obra de Da Vinci, parece ser muito mais a pretensão do homem moderno, que no fundo nada mais era do que um ícaro a cair retorcido no ar, sem controle de nada, mas se achando Deus do mundo.
O que Caravaggio tem a ver com toda essa reflexão? Ele foi um dos últimos maneiristas e criador de uma nova forma de construir o mundo, com seus claros e escuros, com seus modelos imperfeitos, com sua dramaticidade da vida, com a dualidade entre mundano e divino. Ele criou o Barroco.
Será que nós, seres hipermodernos, a quem não cabe mais uma visão dual de mundo, visão moderna, mas que persiste em nós, não compreendemos o maneirismo que somos e a luz que procede vindo de Caravaggio?
Ao olhar-se um quadro dele, a luz e a sombra saltam aos olhos e fazem as ações retratadas, cenas dramáticas, ganharem mais força. A luz, no entanto, muitas vezes irreal, é a que ilumina o que a cena tem de principal, deixando a sombra o resto. A luz de Caravaggio é divina.
No capitalismo hipermoderno, em que não temos controle de nada, mas que achamos ter poder e acesso a tudo, o marketing se tornou a luz de Caravaggio, nos dizendo o que realmente importa, nos mostrando ideias de vida, de relações, de existência. Caindo eternamente, como Ícaro, acreditamos ser Vitruvianos, tomados por visões de mundo mercadológicas que incidem sobre nosso drama de vida como uma luz divina.
É preciso que percebamos que há uma escuridão a nossa volta, que esconde maravilhas e horrorosidades. Precisamos não destruir a luz, mas torná-la nossa e aceitar nossa queda, construindo caminhos em que percebamos que não podemos ver tudo, mas que há uma luz divina que pode emanar de nós para nós e modificar nossos corpos distorcidos.








