Pentesileia é uma das cidades que Marco Polo descreve ao Grand Kahn, no livro de Italo Calvino, Cidades Invisíveis. Como todas as cidades do livro, nenhuma deixa de ser a mesma. Na que está aqui em destaque nunca se consegue saber se estamos já nela ou se já saímos dela, como o autor coloca ao final da descrição que faz da cidade: "fora de Pentesileia existe um lado de fora? Ou, por mais que você se afaste da cidade, nada faz além de passar de um limbo para o outro sem conseguir sair dali?"
Pentesileia, na mitologia grega, foi uma das rainhas amazonas. Sua história, no entanto, é trágica, ela matou sua irmã por acidente, passando a desejar a própria morte pelo que fez. Motivo que a levou a entrar na guerra de Troia, onde é morta por Aquiles. Esse ao ver toda a beleza da amazona, por de trás de sua armadura, se comove. Temos uma beleza escondida e uma tristeza que constrói o caminho da própria morte, pela incapacidade de sentir a vida.
Queria partir desse pensamento para dizer que Petensileia é a cidade do inexperienciavel. Nada fica como conhecido, nada fica como sabedoria, nada nos constrói. Ao final de uma jornada na cidade, volta-se extenuado para seu dormitório, tendo passado por inúmeras situações de estresse ou prazer, sem que nada vire experiência, sem que nada possa ser expropriado na fala. O cidadão de Pentesileia, quando fala tudo, não consegue dizer nada de si, fica ele melhor calado, em silêncio, do que se exortando em palavras vãs. No dia seguinte, no fim de semana seguinte, ele irá repetir o vivido como um outro, como se estar em uma nova localidade fosse possível.
A cidade limbo, o inferno de Hades em que se vive sempre o mesmo, está no metrô, onde escrevo esse texto, está na rua, no trabalho, na escola, na cerveja com os amigos, nas relações amorosas. Petensileia escorre por nossos corpos até que não haja mais corpos, primeiro dominados por prazeres sem profundidade, para apaziguar cotidianos rasos e extenuantes, depois porque passamos da cidade limbo para o nada completo, o abraço frio da morte, nada romântico, em que a repetição se torna eterna por força da natureza e não mais por nossas ações.
Não há rota de fuga, mas ninguém falou que os prédios de Pentesileia são indestrutiveis. Sua destruição, no entanto, não está na busca do prazer, que se tornarão uma busca constante e repetitiva. Ela está na desativação de suas construções por atos de tomada de posse. Uma posse de si com os outros, uma posse coletiva e individual, em que sejamos aquilo que queremos e não o que querem que queiramos. Quando formos um ser qualquer (qual-se-quer), sem precisar de afirmação, sem precisar dizer o que somos, Pentesileia parecerá ter sumido e a usaremos livremente interna-externamente em cada um em um coletivo, teremos, por fim, o que experimentar.

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