Inventa-se o Rei Filósofo. Diz-se, a terra não é o centro do universo. Inventa-se o Je pense, donc je suis. Eu penso, logo existo (estou e sou). Diz-se, o sol não é o centro do universo. Inventa-se o inconsciente e o consciente. Diz-se podemos viver num multiverso. O ocidente criou o egocentrismo esquizofrênico. No final, percorremos mais de quatro mil anos para nos sentirmos o centro de um universo sem centro.

O eu cogito do cartesianismo, fundante da nossa sociedade de base iluminista, tornou-se o ser de consumo desenfreado, de prazeres levianos à objetos descartáveis. Bauman liquidificou tudo, que já escorria pelas nossas mãos. Não há amor que dure, não há vivência que vire experiência, não há nada além do eu, do mais puro eu.
A psicanálise, que transformou o eu cogito em um ser de dupla personalidade, entregou tudo a um ego cindido: todas as sensações são do eu, ele as produz e para ele elas voltam, tanto consciente como inconscientemente.
O egocentrismo de um universo de bilhões de centros, um constante chocar de estrelas que esperam que as outras a rodem. Só que nenhuma delas sabe quem são elas mesmo. Todas elas são inconscientes conscientes dos outros e não de si. Nas redes sociais, espaço mercadológico, vendem-se a imagem do outro eu que eu nunca serei, mesmo quando a imagem é feita por "mim" sobre "mim" . Não há Eu algum na foto, mas o centro do universo que eu penso logo existe, mas que se liquefaz em segundos. O eu da foto, não sou eu, mas justamente o EGOCÊNTRICO de um mundo de negócios.
Não pense que negócio é dinheiro, o mercado dominou toda a vida, o beijo que dá em um perdido na noite suja, faz-se pela incapacidade de se ter experiência, faz-se pela emoção da aventura, do novo, do sempre novo, da mercadoria que se renova e se descarta a cada instante. Todo dia ela não faz tudo sempre igual, todo dia ela faz o novo de novo, num eterno renovar do mesmo, numa eterna maquiagem da vida. Na mercadoria, a história não perdura, torna-se inalcançável. Não se sabe de onde ela veio e para onde ela vai, não se vê o prazer fugaz e destrutivo que o ego sente, pois se é prazer meu, é o prazer, é a verdade. Eu sinto, logo inconscientemente existo.
No universo egocêntrico, de bilhões de ego, a história do próprio ego não importa, pois ela implicaria a existência de outros egos, que deveriam rodear o meu ego, mas não rodeiam. Apaga-se o outro, apaga-se as histórias vividas. Cada um aprende a se preocupar só com si, mas paradoxalmente precisamos confirmar nossa liberdade pelo julgamento dos demais. Esquizofrenia social justamente pq não somos o eu que pensa, mas o ser que enuncia "eu penso, logo existo" e só se enuncia a partir de uma linguagem apreendida com os outros. Não há um eu, não há um ego, mas um ser que é único e coletivo, perdido em uma sociedade em que até respirar se tornou um processo mercadológico do Eu (do inexistente), nada que se inspira constrói uma fuga do cotidiano de sempre novos iguais do para mim, do egoísmo. Até as preocupações com os outros perpassam o meu bem estar, antes do bem estar do outro. Inventou-se o egocentrismo. Disse-se, o multiverso sou eu.
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