Querida colunista ocidental:
A questão que a autora levanta é importante, fala do respeito a cultura do outro, assumindo que existe uma cultura etnocida e colonizadora, uma cultura opressora. No entanto, o texto tem dois pontos equivocados: ela também fala da cultura do outro como "integrante da sociedade ocidental defensora dos pobres povos oprimidos" e cai na falácia do que vem se cunhando como "apropriação cultural".
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| Almir Wanaizukar, da tribo manoki, de Mato Grosso, vendeu cocar feito de penas de arara por R$ 150 (Foto: Glauco Araújo/G1) |
Agora sobre o termo "apropriação cultural", tenho que admitir que é um dos piores termos que já ouvi ou li na minha vida. Primeiro porque toda cultura é apropriada: você lê esse texto em português brasileiro, assim como fala essa linguá, porque se apropriou do universo linguístico da cultura em que foi criada, você pensa o que pensa porque se apropriou de diversas visões de mundo, a cultura que vivemos é uma apropriação constante das culturas que se encontram, só existe interação entre povos se há apropriação cultural (caso contrário estaríamos vivendo guerras Babélicas ou o outro não existiria, mesmo que passasse do nosso lado, pois não nos apropriaríamos de sua existência), etc. Há apropriação cultural ou não há cultura. Se a apropriação que realizamos não é profunda, se ela não é profundamente reflexiva, é porque na nossa cultura, na cultura do Capital, nada pode ser muito profundo. Motivo pelo qual somos poucos que se importamos realmente com questões como essa.
Outro fator importante para o debate é que o Carnaval de rua tem uma característica fundamental, ele é Dionisíaco, ele subverte, ele, citando um amigo carnavalesco como eu, é o caos. Não há regra que perdure na rua de carnaval. Inclusive, nesta, toda regra é assumida como aquilo que deve ser transgredido, tudo que é sagrado é profanado. Isso quer dizer que, tudo que se coloca como fora do alcance das pessoas, por exemplo a cultura indígena, é tomada por essas para fazerem delas suas. A história das brincadeiras, desde milênios, é justamente essa: a própria população de determinada cultura pega os rituais sagrados e deles fazem jogos e brincadeiras. O que é o Carnaval se não isso, a suspensão de quase tudo que é sagrado?
Em tempo, essa ideia, como apontei, paradoxal de que possa não existir "apropriação cultural", leva absurdos trágicos e cômicos. Um exemplo deste segundo eu vivi. No carnaval saio com amigos sempre vestido de mulher com peitos. O mais comum são as mulheres do nada apertarem eles, o que os fazem estourar. Com a onda muito correta do "meu corpo minhas regras", começamos a dizer isso quando vinham apertar nossos peitos. Um belo dia uma menina que havia acabado de fazer justamente isso, ao ouvir minha resposta, chegou e falou: "que feio, isso é apropriação cultural das feministas". A menina branca, loira e de olhos verdes, estava vestida de baiana. Sem mais.
"Para debater no Dia do Índio: 'Uso de cocar no carnaval é troca, não discriminação', diz líder indígena" - https://www.bbc.com/portuguese/brasil-43031742

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